ANTES E APÓS AS OLIMPÍADAS

Foi a custa de muito esforço para ultrapassar as queixas a respeito de gastar bilhões num mega evento, enquanto professores permanecem com os salários atrasados. Os críticos dizem ainda que que áreas de luxo foram favorecidas em detrimento dos moradores de favelas. A promessa de limpar baía poluída de Guanabara ficou ainda por cumprir, enquanto a de manter a lei e ordem, agora soa como uma provocação cruel, face ao aumento da criminalidade.

Mas, deixando de lado o senso crítico, os Jogos Olímpicos de 2016 alteraram profundamente a estrutura dessa cidade de 6 milhões de habitantes: produziram um porto revitalizado, uma nova linha de metrô e um fluxo intenso de projetos municipais, pequenos e grandes, que há muito constavam na wish list do planejamento municipal.


"Se deixarmos de lado nossas paixões políticas, houve um planejamento para que os Jogos Olímpicos deixem um enorme legado ao Rio", disse Pedro Corrêa do Lago, um historiador, economista e antigo presidente da Biblioteca Nacional brasileira. "São melhorias que de outra forma poderiam levar de 20 a 30 anos para serem concretizadas".

Para muitos, se tornou um dogma afirmar que as Olimpíadas modernas servem apenas para drenar dinheiro dos cofres públicos, seriam realizadas apenas como uma concessão aos interesses corporativos em um projeto que alimenta a vaidade de líderes famintos por glória, esperançosos em ostentar um legado e divulgar suas nações no cenário mundial.


No Brasil não foi diferente. Nascido sete anos atrás, durante os dias de ouro de um boom econômico, esses Jogos eram encarados inicialmente como um triunfo de um nova economia ascendente e poderosa globalmente. No lugar disso, conforme o país sofreu para atravessar sua pior recessão em décadas, os Jogos Olímpicos viraram emblema do desperdício do governo e da arrogância política - e um dos seus símbolos converteu-se em alvo para manifestantes, perseguidores do revezamento da tocha Olímpica, enquanto ela seguiu seu percurso através do país.

Mas, especialistas dizem que os Jogos também serviram como um poderoso catalisador para a revitalização urbana, estimulando projetos de infraestrutura, financiados com um mix de dinheiro do contribuinte e do investimento privado, que irão melhorar a vida dos moradores do Rio.

Quilômetros de corredores de ônibus reduziram o trajeto de trabalhadores pobres. Quatro novos túneis foram construídos e um sistema de metro ligeiro (Veículo Leve sobre Trilhos) abriu em junho. A nova linha de metrô, a primeira grande expansão do sistema em décadas, começou a operar quatro dias antes da cerimônia de abertura. Foi iniciada a construção de mais de 400 escolas e clínicas de saúde em bairros pobres, parte do que o prefeito chamou de revitalização estimulada pelos Jogos Olímpicos. Ainda assim, os críticos dizem que os Jogos apresentaram benefícios irregulares, favorecendo áreas de luxo como Barra da Tijuca, ou o local da Vila Olímpica, e ignorando centenas de comunidades pobres onde os moradores vivem em habitações de lata que carecem de saneamento básico.

"Os Jogos Olímpicos conduziram ao deslocamento, à gentrificação e a um ambiente atraente para incorporadoras e construtoras", disse Theresa Williamson, diretora-executiva da Catalytic Communities, um grupo de defesa das favelas da cidade.

Mas apesar de reconhecer o péssimo estado das finanças públicas do Rio de Janeiro - as escolas subfinanciadas e hospitais, os salários de funcionários do governo não pagos e a miséria absoluta de suas favelas no alto dos morros - alguns especialistas dizem que os Jogos Olímpicos trarão benefícios para os anos vindouros.

"É inegável que a infra-estrutura que foi construída para os Jogos beneficiará a população, uma vez terminados os Jogos Olímpicos", disse Barbara Mattos, analista da Moody, a agência de classificação de crédito.

Eduardo Paes, prefeito do Rio, famoso por elevar impostos e que tem aspirações a cargos políticos mais altos, é rápido para contragolpear afastando críticas a respeito dos Jogos, ele chama o evento de "uma oportunidade única em uma geração" para atrair investimentos a cidade.

"Ninguém nunca disse que os Jogos Olímpicos vão resolver todos os problemas da cidade", afirmou Paes em entrevista, "Mas nós usamos os Jogos como uma boa desculpa para ter um monte de coisas, coisas que têm sido o sonho de prefeitos nos últimos 50 anos." Ele observou ainda que o orçamento de US $ 12 bilhões para os Jogos foi significativamente menor do que as despesas de outras cidades-sede recentes: cerca de US $ 15 bilhões gastos nos Jogos de Londres 2012 e os US $ 51 bilhões que a Rússia derramou sobre os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 em Sochi.

Encerramento

Acenando para a diversidade do Brasil, como maior país da América Latina, a Cerimônia de Encerramento também homenageou facetas de uma herança musical surpreendentemente rica que é muitas vezes esquecida, promovendo artistas como as Ganhadeiras de Itapuã, um grupo de ex-lavadeiras, resgatando músicas afro-brasileiras do nordeste do Brasil, bem como Arnaldo Antunes, um poeta e cantor de uma banda de rock pioneira de São Paulo.

A cerimônia apresentou um tom carnavalesco, com dançarinos de frevo girando seus guarda-chuvas, uma performance pela lenda do samba Martinho da Vila e músicas de Carmen Miranda, esse conjunto ofereceu um final folclórico, um desfecho apropriadamente pra cima numa Olimpíada que tinha sido envolta em avaliações sombrias e protestos com a proximidade dos Jogos.


Apesar dos receios generalizados de que a cidade estaria despreparada, ou que o crime e desorganização poderiam transformar os Jogos Olímpicos em um constrangimento nacional, muitos brasileiros passaram a ver os Jogos como um triunfo e uma distração tão necessária, levando em conta o mal-estar econômico do país e agitação política. Fonte da Imagem: ubaitaba.com

Chuva, recomeços e renascimentos

Pira Olímpica apagada com chuva cênica, no encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio 2016.